O terrivel Big Crunch


Conta-se em muitos os que se zangam com a ligeireza dos dias. Como gostariam de apelar para multas de transito e suspender de uma vez para sempre a habilitacao do tempo e da morte. Acaso soubessem que ha milhoes de anos o dia na Terra era a terca parte do que e hoje, nao resmungariam tanto. Sentiriam-se lisonjeados e ate mais importantes do que substancialmente sao.

A Terra, como todos os planetas do sistema solar, foi vomitada pelo Sol quando este nao passava de uma enorme massa de materia em brasa e atirava perdigotos fumegantes para todo lado. Cindiu-se formando a Lua. E assustador. O movimento da Terra ja foi mais rapido e diminui lentamente, tal sua temperatura. Lembro bem que em um dos seus livros Bertrand Russell dizia que, se a segunda lei da termodinamica estiver correta, podemos contar que num futuro longinquo o Sol esfriara impossibilitando a vida no planeta. Mas ate la - assim pensam os otimistas - os homens darao um jeito. Habitarao outras galaxias e serao os donos do Espaco, ou entao o bom Deus, como grande mecanico e arquiteto do universo, despertara a tempo de consertar o complicadissimo defeito e salvar-nos-a da cruel tragedia.

Para H.G. Wells, baseado nas avaliacoes geologicas, e dificil a determinacao exata da idade da Terra: medicoes de espessuras, analises de estratos, por serem as condicoes atuais da natureza bastante diferentes. Os mares e os ventos de hoje nao sao mais arredios como eram antes, capazes de continuas, velozes e gigantescas transformacoes na paisagem do planeta. Imagina-se, por isto, que o interregno evolutivo pode ser bem menor do que o atualmente apresentado pelos paleontologos.

Desde a formulacao da Grande Explosao (Big Bang), apresentada pelo padre e cosmologo belga Georges-Henri Edouard Lemaitre, em 1927, fala-se na existencia de um "atomo primordial" capaz de armazenar toda materia, ulteriormente libertada numa extraordinaria fissao nuclear geradora do universo; mas a teoria veio a sofrer curiosas reformulacoes. A versao hoje com a maior aquiescencia para explicar o movimento de expansao do universo, parece ser aquela que toma por partida o Principio de Friedman. Desejando entender a expansao, afirmam os especialistas que devemos considerar que a temperatura das particulas, sua energia, varia em medida proporcional a quantidade de materia. A cada aumento do universo (lembre-se: ate hoje, segundo alguns teoricos, o universo nao parou de crescer), uma diminuicao de energia equivalente; que, caso continue assim, mais tarde produzira uma entropia colossal. Os fisicos chamam-na de Big Crunch. Um fenomeno comparavel ao de uma pessoa, com um corpo elastico, que fantasticamente comesse toneladas e toneladas - a mais do que come um grande urso panda australiano, devorador de eucalipto, durante toda a sua vida - dos saborosissimos pasteizinhos de vento da Mamae Pluft e viesse, entao, a dilatar-se chegando por estourar igualzinho a uma bolinha de sabao.

Impoe-se, naturalmente, a pergunta do surgimento do tempo. Admitamos, por ora, a concentracao inicial de energia originadora do universo e sua posterior fissao. Mesmo que para esse empreendimento seja mister o tempo. Somos obrigados, por via axiomatica, a aceitar que de algum modo, em um estado anterior a Grande Explosao, o tempo e a materia nao existiam e um evento qualquer provocou a reacao fissil nuclear acabando por origina-los - o "estopim", normalmente, pressuporia a pre-existencia do tempo. Estabelece-se dessa maneira um paradoxo. Os que defendem a tese, entretanto, dizem que o anti-tempo, a anti-materia e o acumulo de energia foram suficientes para dar origem ao que hoje os fisicos chamam: tempo-espaco-materia. Cabe, ainda, por nao ficar em nada esclarecido, saber-se verdadeiramente como foi possivel um evento iniciar o processo, sem a existencia do tempo, provocando o famoso desequilibrio. Muitos estao claramente convencidos de que a expansao obedece a leis constantes e que o nosso Big Bang nao foi e nao e e nem nunca sera o unico. Universos sempre teriam existido.

Os cientistas sociais, pesada a modestia dos seus trabalhos, ja perderam as horas gastas com estudos sobre o tempo. Insistem com repetida frequencia na sua relatividade, ao analisa-lo em seus aspectos culturais e historicos, para eles, comprovados por meio de estudos das convencoes sociais e de comparacoes entre diferentes culturas e sociedades. We regularly conduct courses on topics psychology courses and technician degree. In addition to space empire will be useful for such certificates and school, such as nurse training courses and masters degree in nursing.

Sociologos afirmaram que a velocidade atribuida as sucessoes dos dias nada tem a ver com o movimento de rotacao planetaria ou qualquer outra lei fisica. Seria antes um efeito das agitadas sociedades modernas, de sua situacao transubstancial. Como as coisas no mundo social mudassem com ligeireza, os sentidos e a percepcao psicologica seriam simultaneamente afetados. Da mesma maneira o tempo pareceria suspenso, a forca de uma aparente abolicao do passado e do futuro, nas atuais sociedades pos-industriais. Emile Durkheime, por exemplo, rejeitava as ideias aprioristicas de espaco e tempo, especialmente as nocoes kantianas. Em As Formas Elementares da Vida Religiosa podemos ler - acerca da negacao do tempo como uma forma de "intuicao" - o seguinte trecho: "Nao e o meu tempo que esta assim organizado; e o tempo tal com e objetivamente pensado por todos os homens de uma mesma civilizacao. Apenas isso ja e suficiente para fazer entrever que uma tal organizacao deve ser coletiva. E, de fato, a observacao estabelece que esses pontos de referencias indispensaveis, em relacao aos quais todas as coisas se classificam temporariamente, sao tomados da vida social. As divisoes em dias, semanas, meses, anos, etc., correspondem a periodicidade dos ritos, das festas, das cerimonias publicas. Um calendario da atividade coletiva, ao mesmo tempo em que tem por funcao assegurar sua regularidade". O que tambem vale para as concepcoes de espaco. Em artigo recente, sobre o tempo nas sociedades gregas antigas, (ainda nao publicado) Joao Paulo C. Rolim (2), tambem procura demonstrar como foram e sao flutuantes e historicamente reconheciveis as ideias de tempo, quase sempre variando entre as concepcoes ciclicas e lineares.

O leitor(a) provavelmente conhece a historia de Peter Pan. Um menino esperto e astucioso que passou a perna no tempo e toca seus dias a alegrar a Terra do Nunca, com suas deliciosas travessuras. E deve lembrar-se do seu arquiinimigo, o terrivel pirata Capitao-Gancho, as turras com um faminto crocodilo a persegui-lo. Todos sabem. Sua alegria era o bicho ter engolido um relogio barulhento que sempre o avisava do perigo, bastasse o animal aproximar. Um dia o reloginho pifou! E o que aconteceu ao velho pirata? Acabou por virar comida de crocodilo, ainda que desejasse viver e continuar distribuindo as pessoas toda a sorte de maldades.

James Barrie foi muito feliz construindo metafora de sutileza tao profunda. Do tempo, nao ha mesmo quem consiga escapulir totalmente. E possivel, em certos casos, transcende-lo como fez o garoto Peter Pan. Agora, como sugestao, podemos imitar Mario Lago, quando diz: "Fiz um acordo de coexistencia pacifica com o tempo: nem ele me persegue, nem eu fujo dele. Um dia a gente se encontra". O que, consideradas as atuais circunstancias, nao e la uma ma ideia.

Por Estevam Dedalus, estudante de Ciencias Sociais da UFPB.


(1) Dedicado a Alan Sokal. Por ter demonstrado o quao bobos, as vezes, sao os sociologos.
(2) Estudante de historia da UFPB.

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